Charles Kelman
Aos 74 anos, morreu em 1° de junho de 2004, em Boca Raton, Flórida, o oftalmologista norte-americano, Dr. Charles Kelman, após uma longa batalha contra um câncer pulmonar diagnosticado há aproximadamente 6 anos.
Considerado um dos mais brilhantes especialistas na área da catarata do século passado, coube a Kelman inventar em 1967 a técnica de facoemulsificação, baseada em um sistema de ultrasom capaz de remover o cristalino opacificado através de uma minúscula incisão ocular. Este procedimento acabou por revolucionar todo o futuro da correção cirúrgica daquela patologia, fazendo a oftalmologia caminhar em 35 anos mais do que todos os 3000 anos que antecederam a esta sua fantástica invenção.
Seu nome está indelevelmente associado não apenas à KPE, Kelman Phacoemulsification, mas também às suas lentes intra-oculares de câmara anterior, as únicas a sobreviverem à prova do tempo e que continuam válidas para a correção secundária da afacia e como uma alternativa no momento em que se torna impossível a implantação de um cristalino artificial na câmara posterior. A partir deste seu design, Kelman estava recentemente muito empolgado com as pesquisas de sua nova lente, Duet Kelman, capaz de corrigir miopias e hipermetropias em graus elevados.
Como um daqueles raros gênios que nascem em cada século, Charles Kelman inventou a crioextração, a crioterapia para correção de descolamento de retina, inúmeros instrumentos oftalmológicos; era detentor de mais de 100 patentes, tendo sido agraciado com a National Medal of Technology pelo Presidente George H. W. Bush em 1992, pela sua invenção da facoemulsificação. Também foi premiado com a American Academy of Achievement Award (1970), a Ridley Medal do International Congress of Ophthalmology (1990), Inventor of the Year Award da The New York Patent, Trademark and Copyright Law Association (1992), além de ter sido presidente da American Society of Cataract and Refractive Surgery (1995-1997). Em sua homenagem a ASCRS já a partir de 2003 mudou o nome da conferência principal de seu evento anual de Innovator's Lecture Award para Charles D. Kelman Innovator's Lecture.
Fora da medicina, Kelman era piloto profissional e ele mesmo costumava pilotar seu avião, principalmente para Boca Raton, na Flórida, seu destino freqüente nos últimos anos, onde tinha sua casa de veraneio. Foi nesta casa que reuniu, há quatro anos atrás, juntamente com sua esposa Ann, um seleto grupo de amigos mais chegados para aquilo que parecia um último encontro. Ao final, quando se despedia de todos, demonstrando uma estóica coragem para continuar enfrentando o câncer que já o devastava, virou-se para seus convidados e disse: "Não pensem que já entreguei os pontos. Ainda vou lutar muito!".
E como lutou! Nunca escondeu a presença do câncer, e para combate-lo chegou a desenvolver uma caneta especial de ultrasom que ofereceu ao cirurgião torácico para fazer com ela uma tentativa de extrair tal tumor.
Exímio músico, uma de suas maiores paixões era tocar saxofone, e em seu consultório em Nova York um dos quadros pendurados em uma das paredes que mais se orgulhava de mostrar, era uma cópia ampliada de uma longa crítica do jornal The New York Times, tecendo os maiores elogios a uma performance sua no Carnegie Hall.
Grande admirador do Brasil, por várias vezes Kelman veio ao país, e aqui ajudou a implantar e difundir sua técnica no final da década de 70, início de 80, a despeito da imensa resistência então reinante ao novo procedimento cirúrgico. Em 1995, durante o Fórum Internacional 2000 organizado pela Oftalmoclínica Botafogo por ocasião das comemorações dos 20 anos da introdução da faco no Brasil, Kelman recebeu, além de muitas outras homenagens, as chaves da cidade do Rio de Janeiro das mãos do representante do então prefeito César Maia.
Kelman deixa sua esposa, Ann, cinco filhos, e milhares de oftalmologistas em todo o mundo com a sensação nostálgica de terem tido o privilégio de conviver com uma figura absolutamente inesquecível.
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