Lente de contato: atenção redobrada (22/05/2006)
Lentes de contato representam, sem dúvida alguma, um dos grandes avanços tecnológicos na área da oftalmologia nestes últimos 40 anos, mas é fundamental nos lembrarmos que são corpos estranhos em contato com a córnea. Esta estrutura extremamente nobre é a película transparente do olho e que participa, juntamente com o cristalino, do mecanismo de focalização do mundo exterior sobre a retina. Comparando-se com um relógio, poderíamos dizer que a córnea equivale ao vidro enquanto o mostrador seria a íris, a estrutura que dá cor aos olhos. A córnea necessita de oxigenação constante e as lentes de contato modernas cumprem plenamente esta função ao serem dotadas de enorme quantidade de microporos que permitem a passagem do ar diretamente para a sua superfície. Exatamente por terem tais poros, locais onde bactérias e fungos podem se alojar, exigem total cuidado em sua manipulação, principalmente com relação à perfeita assepsia e desinfecção. A adaptação de uma lente de contato é um ato médico, o que significa que todos os candidatos a usá-las devem se submeter antes a um rigoroso exame das condições oculares realizado pelo oftalmologista. Em certas circunstâncias sua adaptação estará formalmente contra-indicada.
As lentes de contato se dividem, basicamente, em duras ou gelatinosas, e estas se desdobram nas muito conhecidas e popularizadas lentes descartáveis. Tais lentes podem ser de uso diário ou semanal. As vantagens das primeiras é que elas saem diretamente do envelope, onde se encontram devidamente esterilizadas em solução especial, para o olho, sem necessidade de entrar em contato com quaisquer produtos de enxágüe. Ao final do dia devem ser descartadas e substituídas por novo par no dia seguinte. As de uso semanal podem ficar em contato com os olhos por um prazo de até uma semana, mas esta prática exige cuidados redobrados e vigilância permanente. Infelizmente muitos pacientes, pelo grande conforto que elas promovem, acabam abusando no seu uso, e mantendo tais lentes nos olhos por períodos muito maiores que 15 dias ou 1 mês. E pior, desaparecendo totalmente de um controle oftalmológico regular. Aí reside o grande perigo no uso indiscriminado e sem controle para os usuários de lentes de contato, principalmente as do tipo gelatinosas.
Muitos pacientes preferem removê-las diariamente, o que é o mais correto, e guardá-las em estojos apropriados imersas em soluções de limpeza e desinfetantes. Há vários produtos no mercado próprios para esta finalidade, mas tais estojos têm que estar sempre muito limpos, o que nem sempre ocorre.
Recentemente mais de 120 casos de ceratites graves provocadas por um fungo (Fusarium) em usuários de lentes de contato foram comunicados ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos. Nas investigações conduzidas até agora naquele país, aparece uma certa relação entre os infectados e o uso de um produto para limpeza e assepsia de lentes de contato fabricado pelo laboratório Bausch & Lomb. No Brasil, a própria empresa decidiu retirar do mercado tal solução, ReNu com MoistureLoc, mantendo outras, como o ReNu Plus, MultiPlus, Multi-Purpose, contra as quais não pesam nenhuma restrição. Nos casos norte-americanos também apareceram, de forma esporádica, produtos de limpeza fabricados por outros laboratórios o que, de certa forma, não permitiu estabelecer se há ou não relação de causa e efeito com o uso deles.
Em recente comunicado enviado à classe oftalmológica e às autoridades americanas, a Bausch & Lomb decidiu fazer um "recall" mundial, retirando definitivamente o ReNu com MoistureLoc de fabricação. De acordo com o Chairman & CEO da B&L, Ron Zarrella, aparentemente "podem estar ocorrendo alterações na fórmula do MoistureLoc quando exposta a certos fatores ambientais, ou quando em contato com o uso da lente ou mesmo com os cuidados da mesma, contribuindo para o aumento do risco de infecção em raras circunstâncias".
O fato agora detectado nos Estados Unidos serve de alerta para os milhões de usuários de lentes de contato no sentido de cuidarem muito bem de suas lentes, evitando abusos no seu uso e conhecendo potenciais perigos que correm com o uso inadequado das mesmas. Manter o estojo sempre muito limpo é uma regra de ouro. Manter os frascos de solução de limpeza e assepsia muito bem fechados e guardados em lugares secos e fora do alcance do sol e do calor é uma outra providência bastante salutar. Jamais umedecer as lentes com saliva e lavar muito bem as mãos com água e sabão e enxaguá-las bastante antes de manipular com lentes, também são hábitos fundamentais para não expor os olhos a uma contaminação séria. Uma ceratite relativamente simples pode evoluir rapidamente para uma úlcera de córnea, algumas vezes tão grave, que pode terminar com uma indicação de transplante de córnea. Ao menor sinal de irritação dos olhos, é mandatório a remoção imediata de tais lentes e checar com o oftalmologista a razão da presença de olhos vermelhos, lacrimejamento, fotofobia. A automedicação nestes casos está absolutamente contra-indicada !
Dr. Miguel Padilha
Outras matérias