O mundo visto por "novos olhos"
Recém chegado de Washington, onde participou do Congresso da Sociedade Americana de Catarata e Cirurgia Refrativa, o oftalmologista Miguel Ângelo Padilha teve a oportunidade de responder às perguntas abaixo formuladas que nos ajudam a entender ainda mais sobre os problemas relacionados com a catarata.
1 - Quando exatamente foi o congresso realizado em Washington?
Dr. Miguel Padilha - O congresso da American Society of Cataract and Refractive Surgery, o mais importante evento mundial na área de catarata, transcorreu de 16 a 20 de abril último, reunindo mais de 7000 especialistas de todo o mundo.
2 - O que (em linguagem leiga) é um implante acomodativo? Como atua para atenuar a vista cansada?
M. Padilha -Todos nós possuímos no interior do olho uma lente natural ou cristalino, cuja função é fazer convergir os raios luminosos provenientes do mundo exterior sobre a retina. Modificando seu formato, ele ajuda a focalizar as imagens tanto de objetos situados ao longe quanto aqueles situados bem próximos. É graças à acomodação que podemos ver as placas na rua ou ler um jornal. Infelizmente, a partir dos 40 anos esta capacidade começa a se extinguir, e aí surge o que os leigos chamam de vista cansada. A lente intra-ocular pseudo-acomodativa tenta exatamente restabelecer a função do cristalino natural e representa um dos grandes avanços na área da oftalmologia.
3 - Com este implante, a pessoa pode parar de usar óculos para vista cansada?
M. Padilha - Os implantes de cristalinos pseudo-acomodativos permitem aos seus portadores se livrarem da necessidade de usar óculos tanto para longe quanto para perto, no exercício de grande parte de suas atividades diárias.
4 - No caso específico da cirurgia de catarata, qual é a maior novidade?
M. Padilha - Nos últimos anos a cirurgia de catarata sofreu várias evoluções. Poderíamos enumerar as incisões cada vez menores, a eliminação do uso de suturas, vários recursos para reduzir ou mesmo eliminar as chances de infecções oculares, a correção óptica baseada em efeito de báscula, a não indução de altos astigmatismos, e agora, os cristalinos pseudo-acomodativos.
5 - Existe alguma estimativa que diga quantas pessoas, em média, recorrem à cirurgia de catarata por ano?
M. Padilha - Em 2003, só nos Estados Unidos foram realizadas 2.3 milhões de cirurgias de catarata. No Brasil, a estimativa gira em torno de 450.000 cirurgias por ano; mas a tendência é de aumentar, em função da maior longevidade do povo brasileiro e por conta desta mesma população estar buscando melhorar sua qualidade de saúde visual. Há um grande percentual de pessoas que simplesmente consideram o seu nível visual satisfatório, quando na verdade tal acuidade está inadequada ao exercício de inúmeras atividades profissionais. Muitas das fraturas de cabeça do fêmur em pessoas idosas costumam estar associadas simplesmente com o fato delas não estarem enxergando bem ao andar nas ruas, subir ou descer calçadas e escadas.
6 - Entre todos os fatores que podem acelerar o aparecimento da catarata, qual é a que ocorre com maior freqüência?
M. Padilha - A catarata representa a primeira causa de cegueira reversível em todo o mundo. Ela é mais freqüente nas faixas etárias acima dos 60 anos, mas pode surgir em qualquer idade, por conta de dezenas de fatores. Apenas para citar alguns, diabetes, hipertireodismo, hiperparatireoidismo, distúrbios renais, uso sistêmico de cortisona, exposição excessiva aos raios ultravioleta, traumatismo ocular, processos inflamatórios intra-oculares. E ainda pode ocorrer sob a forma congênita, decorrente de infecção intra-uterina durante os primeiros três meses de gravidez. A catarata congênita impõe uma correção cirúrgica de urgência, sob pena deste futuro adulto não conseguir desenvolver plenamente sua acuidade visual.
7 - É inevitável desenvolver catarata e ter que operar? Todos nós vamos, mais cedo ou mais tarde, passar por isso?
M. Padilha - Estatisticamente, no grupo populacional dos 70 anos, a catarata está presente em mais de 60% dos indivíduos. Se todos vivêssemos 100 anos, poucos escapariam de ter uma catarata. Ela representa um processo de envelhecimento do nosso cristalino, e embriologicamente esta estrutura tem a mesma origem do tecido que vai formar a pele. Fatores hereditários também influenciam seu aparecimento de forma mais precoce em muitos indivíduos.
8 - Como é possível avaliar a qualidade da visão de uma pessoa, para verificar se a cirurgia já é necessária?
M. Padilha - Antigamente havia um conceito de se esperar a catarata amadurecer para, então, se indicar a cirurgia. Hoje, como vivemos numa sociedade onde cada vez mais dependemos de uma boa audição e de uma boa visão, a cirurgia estará indicada a partir do momento em que o portador de catarata perceber que já não desfruta de uma visão adequada para realizar suas tarefas de forma segura. Já operei vários colegas cirurgiões, que, se não praticassem uma atividade que exige grande acurácia visual, poderiam aguardar até um momento mais tardio para se submeter à cirurgia. Da mesma maneira, isto pode ocorrer com escritores, ourives, advogados, pintores, músicos, etc. Hoje não basta apenas medir a quantidade de visão, mas tornou-se importante avaliar a qualidade visual para a tomada de decisão do momento apropriado para indicar a cirurgia.
9 - Quais são os profissionais que devem se submeter à cirurgia de catarata mais precocemente do que o habitual?
M. Padilha - De forma equivocada, muitos pacientes pensam que a cirurgia de catarata é muito simples e banal, podendo enfrentar terríveis frustrações com os seus resultados. Ao contrário, a facoemulsificação, processo que há 30 anos tivemos o privilégio de ser um dos pioneiros em sua introdução no Brasil, se revela uma técnica notável mas extremamente exigente em sua execução, com uso de inúmeros recursos cuja qualidade não se pode abrir mão. Dentro desta realidade, podemos indicar a cirurgia para todos aqueles pacientes que perdem qualidade visual e se sentem prejudicados em dirigir o seu automóvel, em usar o computador, em reconhecer pessoas a uma distância de 20 metros.
10 - Por que quando se tem glaucoma ou doenças corneanas é melhor antecipar a cirurgia de catarata?
M. Padilha - Com a técnica da facoemulsificação, fazemos uma abordagem cirúrgica através de pequenas incisões, e neste sentido, quanto menos densa for a catarata, menor será o tempo de ultrassom, menos irrigação dentro do olho, e portanto, menor traumatismo para as estruturas intra-oculares. Pacientes portadores de doenças corneanas sofreriam, conseqüentemente, menos danos para o endotélio, tecido fundamental para a córnea se manter absolutamente transparente. Em certos tipos de glaucoma, a pura e simples extração da catarata contribui para a redução e melhor controle dos níveis de hipertensão ocular, típico do glaucoma.
11 - Que doenças corneanas seriam essas?
M. Padilha - principalmente as doenças degenerativas e as distrofias de córnea. A mais comum se chama Distrofia de Fuchs.
12 - Existe algum tipo de paciente que não pode, de jeito nenhum, ser submetido à cirurgia de catarata?
M. Padilha - Recentemente tive a oportunidade de operar uma senhora de 95 anos, e meu paciente mais idoso tinha 98 anos, um pediatra de grande renome no Rio de Janeiro. Portanto, idade não é uma contra-indicação à cirurgia, como muitos acreditam, exceto quando doenças neurológicas degenerativas graves ou em casos de coriorretinopatia ou neuropatia extremamente avançadas assim o desaconselhem. Entretanto, um alerta se faz necessário para o fato que os oftalmologistas não podem abrir mão da qualidade e de atenção para com quaisquer pacientes. Não se pode tergiversar quanto à oferecer segurança máxima a eles, pois em sua maioria esmagadora são pessoas idosas, portadores de doenças cardiovasculares, com marcapassos, diabéticos, extremamente ansiosos. Baseado em uma longa experiência pessoal devotada a cirurgia de catarata, afirmo que todo cuidado é pouco, e em uma fração de segundos pode se ter um desenlace trágico se o cirurgião não reunir todas as condições de pronto atendimento em uma situação de emergência.
13 - Quais são os riscos da cirurgia de catarata? O que pode sair errado quando se manipula o globo ocular por dentro?
M. Padilha - Quando se abre um globo ocular, muitas complicações podem ocorrer, desde indução de astigmatismos, se o cirurgião empregar grandes incisões, até hemorragias intra-oculares, infecções, edema macular, descolamento de retina, descentração de lentes, halos, glare. Algumas são de fácil controle, outras exigem cuidados extras. Estas sem contar com as de ordem sistêmicas.
14 - Que cuidados pré e pós operatório devem ser tomados tanto pelos médicos quanto pelos pacientes em cirurgias de catarata? Quais as novidades neste campo?
M. Padilha - Uma boa avaliação das condições oculares e do canal nasolacrimal, se há dermatoses, infecções do trato urinário, nível glicêmico, condições cardiovasculares, se está em uso de medicamentos que alterem o tempo de coagulação, tudo ajuda a reduzir as complicações. Um bom monitoramento cardíaco durante o ato cirúrgico é importante para se evitar surpresas. A presença de um anestesista ou clínico é muito importante. Infelizmente, por pressões econômicas, alguns profissionais estão, lamentavelmente, abrindo mão de uma série de prerrogativas deles na defesa de seus pacientes.
15 - Quais são as novas tecnologias que permitem calcular com maior precisão o grau da lente que será implantada?
M. Padilha - A busca pela perfeição do ato médico é o mote da medicina moderna, em todos os setores. Na oftalmologia, quando se implanta um cristalino artificial, buscamos devolver uma visão quase perfeita aos nossos pacientes. Dispomos de diversos biômetros para se calcular o grau do cristalino artificial que será implantado, e hoje já estamos incorporando a moderna tecnologia da interferometria óptica a laser, que nos permite fazer tais cálculos com um nível de precisão excelente.
16 - Acertar este grau, antigamente, era um problema?
M. Padilha - Sempre representou uma grande dificuldade calcular tais graus, principalmente em pacientes portadores de altas miopias ou altas hipermetropias. Gradativamente, graças à fórmulas de cálculo de ultima geração, e hoje com a interferometria a laser, isto está deixando de nos preocupar.
17 - Existe alguma estatística sobre o número de pacientes que precisam refazer a cirurgia de catarata porque o grau da lente não tinha ficado correto?
M. Padilha - De acordo com levantamentos feitos nos Estados Unidos, o grau errado é a causa principal de explante de lentes intra-oculares. Mas os números são inexatos pois em muitos casos existe a possibilidade de correção do problema com uso de lentes de contato ou uso de excimer laser.
18 - Em que casos o paciente pode, após a cirurgia, deixar de usar óculos?
M. Padilha - Com a monovisão, ou seja, corrigir um olho para longe e deixar o outro bem corrigido para perto, é possível a muitos pacientes abandonarem o uso de óculos. Com o advento desta nova geração de lentes pseudo-acomodativas, será possível ampliar sensivelmente este grupo. A indicação para se implantar tais lentes tem que ser muito bem feita, e na minha experiência pessoal, creio que 10% dos pacientes podem se beneficiar desta tecnologia.
19 - Por favor explique melhor, em linguagem leiga, o que é e quais os benefícios da biometria por ultrassom de imersão.
M. Padilha - A biometria ultrassônica é um procedimento baseado em emissão de um feixe sonoro inaudível, que atravessando todas as estruturas oculares, permite medir o comprimento correto do globo ocular. Este dado é fundamental no emprego de quaisquer das fórmulas matemáticas disponíveis. Existem dois tipos de equipamentos ultrassônicos : os de contato e os de não contato ou de imersão. Estes últimos, exatamente pelo fato da sonda do equipamento não tocar na córnea, e conseqüentemente, não deformá-la, medem com maior precisão tal comprimento. Esta medida, juntamente com as da curvatura da córnea e da profundidade de câmara anterior nos permitem estabelecer o grau do cristalino artificial.
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