Vista cansada: solução à vista?
No filme "Alguém tem que ceder", as personagens de Jack Nicholson e Diane Keaton se esbarram várias vezes com a troca de seus óculos de perto. De maneira bem descontraída, a trama que envolve protagonistas de diferentes faixas etárias mostra um fato com o qual todo ser humano tem ou terá um dia que conviver. Ou seja, a dificuldade para ver de perto, conhecida pelo leigo como vista cansada e pelos especialistas como presbiopia.
Esta situação é a marca registrada de quem ultrapassa a década dos quarenta anos e para a qual muitos não estão preparados. Para as mulheres representa um sério handicap e tem um significado muito especial. Muitas, nos consultórios, chegam a comentar que a vista cansada representa um problema muito mais sério do que as rugas e sulcos da face.
Mas a presbiopia, que tem sido um dos grandes desafios da oftalmologia, está por ser vencido. Quais suas causas? Quais as soluções hoje disponíveis?
A vista cansada é uma alteração visual que toda a humanidade experimenta a partir dos 40 anos de idade, quando começa a perder a visão para perto por conta de uma esclerose progressiva do cristalino (lente natural responsável pela focalização das imagens sobre a retina). Só os míopes não sentem tanto os seus efeitos, por conta de um mecanismo óptico que contrabalança a manifestação da presbiopia, permitindo-lhes se dar ao luxo de removerem seus óculos para longe e continuarem a ler de perto sem grandes dificuldades.
Até recentemente acreditava-se que a presbiopia ocorria apenas em função da atrofia do músculo ciliar, responsável pelo fenômeno da acomodação (ajuste de foco para longe e para perto). Hoje sabemos que a esclerose cristalineana é o fator principal pela deterioração visual para perto e, curiosamente, este fato ocorre mais precocemente nas regiões mais expostas ao sol do que naquelas de clima temperado ou frio. Nos países nórdicos, por exemplo, a presbiopia começa ao redor dos 45 anos. Com o tempo, esta mesma esclerose acaba provocando o aparecimento da catarata, em conseqüência da opacificação do cristalino.
Para solucionar o problema a oftalmologia só dispunha de óculos para perto, ou sob a forma de lentes bifocais (inventados por Benjamim Franklin) ou lentes progressivas. Inventados há 50 anos na França, estas últimas seguem se aperfeiçoando de forma contínua através de diversos fabricantes (Varilux ®, Hoyalux ®, Zeiss, etc). Nos últimos 20 anos entraram em cena as lentes de contato também bifocais ou multifocais, mas só nos últimos cinco anos a tecnologia permitiu o desenvolvimento de lentes com uma performance muito boa. Uma alternativa bastante empregada é a adaptação de lentes de contato corrigindo um dos olhos para longe e o outro para perto. O sistema, conhecido como monovisão ou báscula, dá excelentes resultados para a maioria das pessoas e é a tecnologia mais empregada nos Estados Unidos.
No âmbito da cirurgia, a oftalmologia caminha em duas direções. Uma, na córnea, promove a ablação deste tecido de forma a transformá-la em uma estrutura asférica, de efeito multifocal. Isto é feito com a tecnologia do excimer laser, já amplamente empregado na correção da miopia, da hipermetropia e do astigmatismo. Com ele fazemos a correção de uma hipermetropia em um dos olhos e hipercorreção do olho contralateral, buscando com isto um efeito de monovisão, exatamente igual ao realizado com as lentes de contato. Do mesmo modo, nos casos de candidatos que não precisam de lentes corretoras para longe, criamos uma miopia no olho não dominante, permitindo-lhes ver ao longe e perto.
Outra novidade, já em uso em alguns países da Europa e Ásia, seriam os implantes intralamelares de pequeníssimas lentes de contato dentro do tecido corneano. Nos Estados Unidos esta técnica ainda se encontra em fase de experimentação e, aparentemente, começa a apresentar resultados alentadores. A parte central desta lente daria visão para longe e a região contígua, periférica, visão para perto.
Uma segunda linha de conduta seria a troca de cristalino com finalidade refrativa, adotando uma cirurgia idêntica a que se pratica na remoção da catarata. Para isto, entretanto, o ideal seria que os candidatos já tivessem, além da presbiopia, algum grau de hipermetropia e a presença de alterações cristalineanas. Na verdade após os 40, 45 anos muitos pacientes já exibem alterações no cristalino que justificariam tal procedimento, principalmente se forem feitos exames especiais que configurem perda de sensibilidade de contraste. É por esta razão que o início da presbiopia é notado como uma maior dificuldade em se ler em ambientes de pouca luminosidade. Só um exame cuidadoso poderá configurar esta situação e, se isto for constatado, estará indicada a cirurgia de facoemulsificação com implante de cristalino artificial que poderá corrigir não só a hipermetropia quanto à própria vista cansada. Caberá ao cirurgião escolher, dentre as inúmeras lentes monofocais, multifocais ou acomodativas hoje disponíveis no mercado, aquela que melhor restaure a visão do paciente e avaliando, criteriosamente, cada caso com seus prós e contras.
Mesmo com todo o avanço destas tecnologias, ainda há uma chance de o paciente não conseguir se livrar integralmente do uso de uma correção para o exercício de determinadas atividades. Mas, de modo geral, ele estará livre dos óculos em mais de 80% de suas atividades.
"Alguém tem que ceder" nos mostra Harry e Erica em pleno apogeu da maturidade buscando conciliar conceitos de vida ainda não bem definidos ou, pelo menos, fora da realidade para ele e aparentemente já adormecidos para ela. De forma magistral coube a diretora-roteirista Nancy Meyers materializar nos óculos uma forma de revelar a dimensão de suas dificuldades e com as quais a platéia da faixa etária acima dos 40 rapidamente se identifica. A natureza, na realidade, foi bastante sábia ao estabelecer esta idade para introduzir esta deficiência. Nesta década da vida, na verdade, inicia-se um novo ciclo, talvez mais introspectivo e caminhando aos poucos para valorizar cada vez mais as coisas da alma, e retirando dos olhos uma progressiva capacidade de se aperceber das mazelas materiais que vão se instalando no corpo. Neste sentido, não há do que duvidar... nós temos que ceder ao tempo, mas sem perder, nunca, a disposição e esperança em viver intensamente cada momento a nós concedido.
Dr. Miguel Ângelo Padilha
(Publicado no site da Marcia Peltier)
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