Palestra Magistral

Inovações em catarata: evolução ou revolução?

E m sua Palestra Magistral “Afonso Fatorelli”, Miguel Padilha inicialmente salientou a importância da biografia do Prof. Fatorelli para a chegada da moderna técnica da facoemulsificação no Brasil em 1975.

Em 1976 Miguel Padilha é convidado para se juntar ao grupo pioneiro da facoemulsificação e levar adiante o ambicioso projeto de disseminar o seu aprendizado não apenas no Brasil, mas também em toda a América Latina. Fatorelli, após assistir demonstrações ao vivo das cirurgias por esta técnica em Bologna pelo seu inventor, Charles Kelman, e mais tarde em Nantes, chegou ao Brasil suficientemente entusiasmado para, juntamente com o Dr. Pedro Moacyr de Aguiar, então Diretor da Seção de Oftalmologia do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, organizarem o primeiro curso no Rio de Janeiro, com a presença do Dr. Robert Sinskey, da Califórnia.

Convidados pelos dois oftalmologistas brasileiros, Miguel Padilha e Paulo César Fontes se juntam para formar o Grupo Pioneiro da introdução e disseminação da facoemulsificação não só no Brasil, mas também em toda a América Latina. Paralelamente, Fatorelli também empresta todo seu apoio ao desenvolvimento dos implantes de lentes intraoculares no Brasil.

Em 1982 fundam a Sociedade Brasileira de Catarata e Implantes Intraoculares e em 1983 realizam o 1º. Simpósio Internacional no então Hotel Rio Palace, hoje Sofitel, no Rio de Janeiro.

Ao longo de toda a história da cirurgia da catarata, cuja primeira citação se encontra em um livro publicado na India por Susruta, vários foram os momentos em que a cirurgia experimentou verdadeiramente uma revolução, com mudança total em seus paradigmas.

Por mais de 2.400 anos a técnica então utilizada chamava-se reclinação e somente em 1745, um cirurgião francés, Jacques Daviel, concluiu que era chegado o momento de rever aquela técnica tão primitiva, onde a catarata era empurrada para o corpo vítreo através de um instrumento de extremidade cortante.

No inicio do século passado, após ter sofrido várias evoluções, outra revolução acontece ao se desenvolver a técnica de extração da catarata pelo método intracapsular com a utilização de pinças especiais. Em 1961, o cirurgião polonês, Tadeus Krawics, inventa a crioextração e este novo procedimento passa a ser adotado em todo o mundo.

Mas logo em 1967, inconformado com a técnica proposta por Krawics, o oftalmologista Charles Kelman, de Nova York, revoluciona de maneira dramática a cirurgia da catarata, inventando o facoemulsificador à base de ultrassom. Com esta técnica, a incisão na cirurgia da catarata se reduz dos tradicionais 15 mm para 3 mm!

Outros cirurgiões tentam modificar a técnica, experimentando diversos lasers como o Nd:Yag laser e outros de pulso curto, mas os resultados não são satisfatórios, e a técnica de remoção da catarata pela facoemulsificação continua sendo o padrão-ouro em todo o mundo.

Com o advento das lentes intraoculares (cristalinos artificiais), só na década de 1980 a facoemulsificação consegue finalmente conquistar os cirurgiões, ao se desenvolverem os primeiros cristalinos dobráveis e introduzidos por incisões menores que 3.0 mm.

Os cristalinos de silicone chegam a dominar o mercado por uma década, mas logo começam a ser abandonados em favor de cristalinos dobráveis de acrílicos hidrofílicos e hidrofóbicos.

Posteriormente surgem as lentes Premium com características bastante avançadas, incorporando princípios de asfericidade, para anular os efeitos de aberrações da córnea; as lentes multifocais, acomodativas, tóricas e, mais recentemente, as lentes tóricos-multifocais.

Todas estas inovações, algumas de caráter evolutivo, outras impondo uma verdadeira revolução nos paradigmas então existentes, agora enfrentam a era do laser de femtosegundo. Como se trata de uma nova tecnologia, necessita de tempo para uma melhor avaliação sobre suas efetivas vantagens. São equipamentos muito caros e exigindo altos custos de manutenção. Por ora, não são capazes de realizar a extração da catarata de forma integral. Ainda dependem, nos tempos principais e mais críticos, da dextreza e habilidade dos cirurgiões bem treinados em facoemulsificação, para serem removidas. Como vários cirurgiões afirmam, a tecnologia do femtosegundo ainda se encontra em “sua infância” e, certamente, muitos melhoramentos serão necessários para poderem ser incorporados na rotina da grande maioria dos cirurgiões.

No momento, comparando-se os resultados de uma cirurgia realizada com facoemulsificação “pura” com outra realizada com facoemulsificação assistida pelo laser de femtosegundo, os resultados ainda são favoráveis ao primeiro grupo (em mãos de experts, é óbvio!).

Enquanto alguns cirurgiões encaram a nova tecnologia como um avanço, a maioria prefere esperar por equipamentos mais aperfeiçoados e com melhores dispositivos de segurança, além de redução dramática de custos, para, eventualmente, aceitarem incursionar nesta nova era.